Hemodiálise: guia prático para médicos (2026) Esta série cobre hemodiálise do zero ao avançado — princípios físicos, prescrição, adequação, volume, dialisato, acesso vascular, modalidades e complicações. Escrita para residentes de nefrologia, clínicos e plantonistas que precisam entender HD com segurança.

Artigos da série:

  1. [Princípios físicos e prescrição básica]você está aqui
  2. [Kt/V e adequação dialítica]
  3. [Manejo clínico do paciente crônico em HD]
  4. [Volume, peso seco e ultrafiltração]
  5. [Dialisato e água para diálise]
  6. [Acesso vascular e anticoagulação]
  7. [Modalidades de HD crônica: HDF, diálise noturna e diária]
  8. [HD aguda vs crônica: indicações e transição]
  9. [Complicações intradialíticas]

Em resumo: hemodiálise é uma terapia de substituição renal em que o sangue circula por um sistema extracorpóreo e entra em contato com uma membrana semipermeável — o dialisador — enquanto uma solução eletrolítica, o dialisato, passa do outro lado. A depuração de solutos urêmicos acontece por difusão (principal mecanismo) e por convecção. O controle de volume acontece por ultrafiltração (UF). Uma prescrição básica tem quatro objetivos: depuração, controle de volume, equilíbrio eletrolítico/ácido-base e segurança.


O que a hemodiálise faz — e o que ela não faz

Entender esse ponto evita erros de raciocínio ao longo de toda a vida na nefrologia.

A hemodiálise substitui as seguintes funções renais:

  • Excreção de solutos pequenos (ureia, creatinina, potássio, fósforo, toxinas dialisáveis)
  • Correção parcial de eletrólitos e ácido-base
  • Controle de volume

A hemodiálise não substitui bem:

  • Função endócrina renal (eritropoetina, ativação de vitamina D, renina)
  • Controle fino e contínuo de sódio e água (diálise é intermitente, 12 horas por semana; o rim trabalha 24h por dia)
  • Remoção eficiente de moléculas médias e de proteínas ligadas
  • Metabolismo mineral complexo (cálcio-fósforo-PTH)

É por isso que o paciente em hemodiálise crônica continua precisando de manejo ativo de anemia, distúrbio mineral ósseo (DRC-DMO), hipertensão, nutrição, vacinação e prevenção de infecção. A máquina não cuida de nada disso.


Princípios físicos: difusão, convecção e ultrafiltração

Difusão: o principal mecanismo da HD convencional

Difusão é o transporte de solutos de uma área de maior concentração para menor concentração através da membrana semipermeável do filtro (ou dialisador) de HD, movido pelo gradiente de concentração — sem gasto de energia, sem pressão.

Na hemodiálise convencional, a ureia sai do sangue (alta concentração) para o dialisato (concentração baixa ou zero). O potássio sai do sangue se o banho tiver concentração de potássio menor que a do sangue (o que é o mais comum). O bicarbonato entra no sangue se o banho tiver bicarbonato em concentração maior.

Os fatores que determinam a eficiência da difusão são o gradiente de concentração (quanto maior, mais eficiente), a área da membrana, a permeabilidade da membrana ao soluto em questão, o fluxo de sangue (Qb ou FS) e o fluxo de dialisato (Qd ou FD), e o tamanho molecular do soluto.

Ponto central: difusão remove muito bem moléculas pequenas — ureia (60 Da), creatinina (113 Da), potássio, fósforo — mas é progressivamente menos eficiente conforme o tamanho molecular aumenta. Isso acontece porque quanto maior a molécula, menor é seu movimento. Consequentemente, a difusão vai ser inversamente proporcional ao tamanho da molécula. Moléculas médias (2–60 kDa), como beta-2-microglobulina (cerca de 12 kDa) e PTH intacto, difundem lentamente. Perceba que a beta-2-microglobulina é 200 vezes maior que a molécula da ureia.

O princípio da contracorrente: por que o dialisato flui ao contrário

Se você observar qualquer máquina de hemodiálise em funcionamento, vai notar: o sangue entra pelo lado esquerdo do filtro e o dialisato entra pelo lado direito — em sentidos opostos. Isso não é convenção. É a decisão de engenharia mais importante no projeto de um dialisador.

O problema do fluxo paralelo (cocorrente)

Com dialisato fluindo no mesmo sentido do sangue, o gradiente de concentração é máximo na entrada e cai progressivamente — até que sangue e dialisato se aproximam do equilíbrio na saída. A membrana para de trabalhar no terço final. Com fluxo paralelo, a depuração máxima teórica de ureia fica em torno de 48–50%, porque o equilíbrio entre os dois fluidos é o teto físico impossível de superar com esse arranjo.

Como a contracorrente resolve isso

No fluxo contracorrente, o sangue que acaba de ser depurado (saída, baixa ureia) encontra dialisato fresco (entrada, zero ureia). O gradiente no ponto de saída do sangue é alto — não nulo. E o sangue que entra cheio de ureia encontra dialisato ainda com concentração menor. O gradiente nunca desaparece ao longo de todo o comprimento da membrana. A membrana trabalha do começo ao fim, e a depuração de ureia alcança 70–80%. O que acontece é que o fluxo em contracorrente impede o equilíbrio de concentração de solutos maximizando as trocas em todas as partes do dialisador.

Como o sangue e o dialisato fluem em contracorrente, as curvas de sangue e dialisato correm paralelas — ambas decrescendo da esquerda para a direita, separadas por um gap constante. Essa área sombreada entre as curvas é a força motriz da difusão. No modo cocorrente, as curvas convergem: formato triangular que estreita até Δ ≈ 0 na saída do sangue.

Convecção: o arraste junto com a água

Convecção é o transporte de solutos arrastados pelo fluxo de água que atravessa a membrana. Quando se força a passagem de água (ultrafiltração), os solutos solúveis nela a acompanham — desde que o tamanho molecular seja menor que o poro da membrana (coeficiente de sieving).

Convecção é mais eficiente que difusão para moléculas médias e grandes — seguindo a lógica de que elas se movimentariam menos e, portanto, necessitam desse esforço extra, o arraste (solvent drag) para que sejam carregadas do sangue do paciente para o dialisato. A convecção é o mecanismo dominante na hemofiltração e na hemodiafiltração (HDF). Na HD convencional de alto fluxo, ocorre convecção interna dentro do próprio dialisador (backfiltration), que contribui para a remoção de algumas moléculas médias — motivo pelo qual membranas de alto fluxo superam as de baixo fluxo nesse aspecto.

Ultrafiltração e pressão transmembrana (TMP)

Ultrafiltração (UF) é a retirada de água plasmática (e dos solutos nela dissolvidos) por pressão transmembrana — a diferença de pressão entre o compartimento do sangue e o do dialisato no filtro.

A TMP é controlada pela máquina, que ajusta pressões para atingir exatamente o volume de ultrafiltração prescrito. O volume a retirar é calculado como:

Volume de UF (UFT) = (peso pré-HD − peso seco) + volume de infusões durante a sessão

  • UFT = ultrafiltração total
  • UFE = UF efetiva = Peso pré-HD – (volume de infusões + Peso Seco)

A UFE significa o quanto de volume de líquido será efetivamente retidado do paciente. Por isso chamamos de UF efetiva. Por exemplo, uma prescrição em que houver UFT 1500 ml / UFE 1000 ml quer dizer que durante a sessão será retirado 1500 ml no total, mas o paciente vai perder 1000 ml. Os 500 ml restantes são de soluções que vão entrar durante o período da hemodiálise.

Mas UF não é simplesmente “tirar água”. A taxa de UF (expressa em mL/kg/h) importa tanto quanto o volume total. Quanto maior a taxa, maior o risco de hipotensão intradialítica, isquemia miocárdica silenciosa (stunning miocárdico), isquemia cerebral e perda acelerada de função renal residual. O KDOQI 2015 chama atenção para que taxas de UF acima de 13 mL/kg/h estejam associadas a maior mortalidade em pacientes crônicos.


O dialisador: membrana e fluxo

O dialisador é o ponto chave do circuito. É nele que vai acontecer a depuração dos solutos e existem alguns detalhes importantes.

Membranas sintéticas vs celulose

As membranas modernas são sintéticas (polissulfona, polietersulfona, poliamida). As de celulose não modificada, praticamente fora de uso, ativavam complemento e causavam reações. Você quase não vai ver mais membranas de celulose não modificada na prática atual.

Alto fluxo vs baixo fluxo

O parâmetro que define isso é o coeficiente de ultrafiltração (KUF) — que quer dizer o volume de água que passa pela membrana por hora por mmHg de TMP.

  • Baixo fluxo (low-flux): KUF < 10 mL/h/mmHg. Poros pequenos. Boa remoção de pequenas moléculas; remoção ruim de moléculas médias.
  • Alto fluxo (high-flux): KUF > 20 mL/h/mmHg. Poros maiores. Boa remoção de moléculas médias (beta-2-microglobulina, PTH, interleucinas). Exige sistema de controle volumétrico preciso na máquina.

As diretrizes KDOQI 2015 recomendam preferencialmente membranas de alto fluxo para HD crônica, dada a evidência de melhor remoção de moléculas médias com consequente benefício cardiovascular e menor risco de amiloidose relacionada à diálise. Membranas de baixo fluxo ainda têm lugar em situações específicas — pacientes sem sistema adequado de controle volumétrico, por exemplo.

Área de membrana e clearance

O clearance de ureia, ou de qualquer outro soluto, do dialisador depende da permeabilidade da membrana ao soluto (K0) e também da área de membrana em m² (A). Chamamos isso de Coeficiente de área de transferência de massa (K0A; em ml/min) e ele é o melhor indicador de eficiência do filtro. Quanto maior, mais eficiente (maior área de troca e maior permeabilidade ao soluto). Dialisadores maiores (1,8–2,1 m²) têm maior clearance, mas exigem Qb adequado para que a membrana seja aproveitada. Um dialisador de 2,0 m² com Qb de 200 mL/min não vai performar muito melhor que um de 1,6 m² com Qb de 400 mL/min.


Prescrição básica: os quatro objetivos

Toda prescrição de hemodiálise tem quatro objetivos. Pensar neles evita que você prescreva algo incompleto ou incoerente:

  1. Depuração: tempo, Qb (FS), Qd (FD), tamanho e tipo do dialisador
  2. Controle de volume: UF alvo, tempo (que afeta a taxa de UF), manejo de peso seco
  3. Equilíbrio eletrolítico e ácido-base: composição do banho (K, Ca, bicarbonato, Na)
  4. Segurança: acesso vascular, anticoagulação, temperatura, monitorização

No geral, a prescrição terá 8 itens:
1) Tempo / 2) FS / 3) FD / 4) UFT / 5) UFE / 6) Heparina / 7) Sódio / 8) Temperatura

Eventualmente, um ou outro item será suprimido (é comum encontrarmos prescrições sem a UFE descrita; ou quando o FD é zero, ou seja, o banho está desligado, não há necessidade de prescrever sódio e temperatura). Tambem é possível que tenham informações extras (principalmente na HD de crônicos) como concentração do bicarbonato e manipulação do banho.

A prescrição típica de HD crônica ambulatorial

ParâmetroValor típicoRaciocínio rápido
Frequência3×/semanaPadrão, adequado para maioria dos pacientes crônicos
Tempo3,5–4h (preferir 4h)Tempo curto = Kt/V baixo e UF agressiva
Qb (FS)300–450 mL/minMaior Qb = maior clearance, até o limite do acesso
Qd (FD)500–800 mL/minQd alto mantém gradiente de concentração ao longo do dialisador
DialisadorAlto fluxo (1,6–2,1 m²)Preferência KDOQI 2015 para crônico
Banho de K2–3 mEq/LAjustar conforme K pré-HD habitual do paciente. O mais comum é o banho com concentração de 2 mEq/L
Banho de Ca2,5–3,0 mEq/LNa maioria das vezes a concentração será de 3,0; O dialistato com 2.5 é chamado de “pobre em cálcio”, usado em pacientes com hipercalcemia.
Bicarbonato32–38 mEq/LGeralmente 35 mEq/L; ajustar conforme acidose pré-HD (o ajuste +8 a -8, por exemplo, vai depender da marca e do modelo da máquina)
Sódio~138 mEq/LPróximo da normonatremia; evitar sódio alto por rotina; Evitar variação maior do que 10 mEq/L entre o sódio do banho e sódio sérico do paciente
Temperatura36–37 °C (ajustar)Banho frio (35–36 °C) para hipotensão recorrente
AnticoagulaçãoHeparina não fracionadaDose ajustada; ver situações sem heparina abaixo
UF alvopeso pré − peso secoCalculado por sessão; taxa ≤13 mL/kg/h como referência

Por que ajustar os fluxos (Qb e Qd)

Qb (fluxo de sangue / FS) é o determinante mais importante do clearance após o tempo de sessão. Aumentar o Qb de 200 para 350 mL/min pode aumentar o Kt/V de forma mais eficiente do que trocar o dialisador. A lógica disso é simples: quanto mais sangue por minuto passar no capilar do dialisador, maior será o volume de sangue filtrado ao final da sessão. Quanto maior o FS melhor para o paciente.

O limite prático é o acesso — um cateter duplo lúmen é menor do que um permcath, que vão ter um fluxo menor do que um fístula (que chega a ter um fluxo de sangue de 1000 ml/min!). Mas mesmo a fístula, se estiver com problema (trombose, estenose) ou um cateter com mau posicionamento vão limitar o Qb independentemente do que você prescreva. Qb ideal no crônico deve ser entre 400 e 450 mL/min.

Qd (fluxo de dialisato / FD) mantém o gradiente de concentração ao longo do dialisador. Com Qd baixo, o dialisato fica saturado de ureia antes de percorrer todo o dialisador, reduzindo o gradiente no trecho final. O padrão é Qd = 500 mL/min; aumentar para 800 mL/min traz apenas um ganho adicional de clearance muito pequeno. Atualmente, está em desuso colocar o FD em 800 ml/min, mas pode ser uma estratégia útil em pacientes com V grande (grande volume de distribuição; musculosos, obesos) em que todos os outros ajustes foram realizados. A relação Qd/Qb deve estar em torno de 1,5–2,0.

Tempo e frequência: onde mais se perde

Sessões encurtadas são a causa mais comum de Kt/V baixo nos serviços de diálise. Uma sessão de 3,5h entrega menos que 4h — parece óbvio, mas é fácil deixar passar. Além da depuração, o tempo determina a taxa de UF: paciente com ganho interdialítico de 4 kg em 4h tem taxa de UF de 1000 mL/h; o mesmo ganho em 3h exige 1333 mL/h — risco muito maior considerando o limite superior da taxa de UF em 13 ml/kg/h.

O padrão de três sessões semanais é um compromisso entre eficiência e logística. Modalidades mais frequentes (diária, noturna) melhoram controle de fósforo, volemia e pressão — isso será discutido em um próximo artigo desta série.


O banho: cada eletrólito tem uma lógica clínica

Potássio do banho

Quanto menor o K do banho, maior o gradiente e mais rápida a queda do potássio sérico. Banho de K 2 mEq/L é o mais usado. Banho de K 1 mEq/L fica reservado para hipercalemia grave selecionada, pois aumento abrupto do gradiente de K pode precipitar arritmias durante a sessão — especialmente nos primeiros 60 minutos, quando a queda de K é mais rápida. Banho de K 3 mEq/L é usado em pacientes que chegam com K baixo ou que têm arritmias com banho de K 2. Banho de K 4 mEq/L é raramente necessário e deve ser justificado explicitamente.

Dependendo do seu serviço, é possível aumentar a concentração de potássio no banho ao adicionar ampolas de KCl no banho ácido. A cada 7 ampolas (10 ml) de cloreto de potássio 19.1% que você acrescentar ao banho ácido, vai aumentar 1 mEq/L na solução. Logo, é uma estratégia que pode ser utilizada se você necessitar dialisar um paciente com hipocalemia persistente com o banho de 2 de potássio (se não houver reposição, o potássio sérico do paciente vai tender a 2 e pode causar complicações).

Caso você não possa manipular o banho acrescentando soluções, é preciso repor o potássio EV para que não haja complicação, ou mesmo dialisar o paciente com banho desligado (se possível); Assim não vai haver trocas de eletrólitos, apenas ultrafiltração.

Cálcio do banho

Banho de Ca 3,0 mEq/L é o mais utilizado na minha prática atual; entrega mais cálcio, pode ajudar na hipotensão intradialítica e pode suprimir PTH — útil em hiperparatireoidismo grave sem calcimimético ou em hipocalcemia sintomática. A contrapartida é risco de balanço positivo de cálcio e calcificação vascular ao longo do tempo. O banho com concentração de cálcio de 2.5 mEq/L é comumente usado em pacientes que estão com hipercalcemia. Banho de Ca 1,5 mEq/L é raramente usado e pode precipitar hipotensão e arritmias.

Bicarbonato do banho

A faixa habitual é 32–38 mEq/L, com 35 mEq/L como ponto mais comum. O objetivo é que o paciente chegue ao início da próxima sessão com bicarbonato pré-HD entre 20 e 22 mEq/L (KDOQI 2015). Bicarbonato muito alto no banho causa alcalose metabólica pós-HD com queda de cálcio ionizado relativa, o que pode precipitar câimbras, arritmias e hipoventilação em pacientes com patologias pulmonares.

Sódio do banho

Sódio próximo de 138 mEq/L é o padrão. A modelagem de sódio (usar sódio alto no início e reduzir progressivamente) melhora tolerância hemodinâmica mas aumenta sede, ganho interdialítico e hipertensão. Não deve ser prescrita de rotina — reservada para hipotensão intradialítica recorrente após exclusão de outras causas. Na maior parte dos pacientes, manter o sódio do banho próximo ao sódio plasmático do paciente é a conduta mais segura.


Anticoagulação

Por maior que seja a tecnologia envolvida na produção dos materiais da máquina de HD, a membrana e o circuito extracorpóreo sõa estranhos ao organismo e ativam a cascata de coagulação. Sem anticoagulação, o sistema coagula, você perde o acesso temporariamente, perde eficiência de depuração, perde a dose de diálise da sessão e, pior, perde sangue do paciente no circuito.

Protocolo padrão: heparina não fracionada (HNF) em bolus inicial (tipicamente 50 UI/kg ou 2.000–3.000 UI) ± infusão contínua durante a sessão (500–1.000 UI/h), com suspensão 30–60 minutos antes do final para evitar sangramento pós-HD no sítio de punção.

Na prática, o que usamos, é uma dose padrão de 5000 UI no início da sessão para a maioria dos pacientes. Durante o acompanhamento, pode ser necessário um ajuste da dose.

Quando considerar HD sem heparina (flush com salina a cada 15–30 min):

  • Sangramento ativo
  • Pós-operatório recente (principalmente neurocirurgia, oftalmologia, procedimentos com alto risco hemorrágico)
  • Trombocitopenia grave ou suspeita de trombocitopenia induzida por heparina (HIT)
  • Hemorragia intracraniana recente
  • Biópsia renal ou procedimento invasivo recente

Alternativas:

  • Heparina de baixo peso molecular (enoxaparina) em dose única pré-HD em protocolos selecionados
  • Anticoagulação regional com citrato — mais usada na terapia contínua (CRRT), abordada num próximo artigo desta série.

Introdução ao Kt/V: a dose de diálise

Você precisa conhecer o conceito desde o primeiro paciente, mesmo que a fórmula detalhada fique para o artigo 2 da série Hemodiálise: guia prático para médicos (2026).

Kt/V é a medida de dose de diálise usando ureia como marcador:

  • K = clearance de ureia pelo dialisador (mL/min)
  • t = tempo de diálise (min)
  • V = volume de distribuição da ureia (≈ água corporal total)

O que importa agora: o KDOQI 2015 define como alvo mínimo entregue um spKt/V ≥ 1,2 por sessão (3×/semana), com alvo de 1,4. Um Kt/V abaixo de 1,2 significa que a dose mínima de diálise não foi entregue — e as intervenções para corrigir isso são sistemáticas: verificar tempo real de sessão, verificar Qb real durante a sessão (não apenas o prescrito), verificar coleta de ureia pós-HD, e revisar o acesso vascular.

O artigo 2 desta série vai detalhar o cálculo, os tipos de Kt/V (spKt/V, eKt/V, stdKt/V), as limitações e como resolver Kt/V baixo na prática.


Armadilhas práticas nos primeiros pacientes em HD (crônicos)

Conhecer os erros mais comuns protege o paciente e poupa o residente de constrangimentos:

1. Prescrever UF agressiva sem avaliar o ganho interdialítico real.
Se o paciente ganhou 5 kg em 2 dias, o reflexo correto não é colocar UF de 5 kg em 4h — é entender por que ele ganhou tanto (dieta, desvio de peso seco, adesão à restrição hídrica) e distribuir a retirada com segurança.

2. Não revisar medicações antes da sessão.
Anti-hipertensivos vasodilatadores (especialmente de ação prolongada) tomados antes da HD amplificam a hipotensão intradialítica. É comum a orientação de suspender anti-hipertensivos nas manhãs de HD — mas precisa estar na prescrição e no prontuário.

3. Deixar o Qb baixo “para não estressar o acesso.”
Qb baixo (< 250 mL/min) compromete o Kt/V. Se o acesso não suporta Qb adequado, o problema é o acesso — que precisa ser investigado, não o Qb que precisa ser mantido baixo indefinidamente.

4. Interpretar Kt/V isolado como definidor de excelência dialítica.
Kt/V mede depuração de ureia. Não mede controle de volume, remoção de fósforo, estabilidade hemodinâmica ou qualidade de vida. Um paciente com Kt/V de 1,4 e hipotensão em todas as sessões não está bem dialisado.

5. Não registrar a sessão adequadamente.
Complicações intradialíticas, variações de Qb, encurtamentos de sessão, quantidade real de UF retirada — tudo isso precisa estar no registro. É a única forma de identificar tendências e agir proativamente.


Resumo de bolso

ObjetivoParâmetros que controlam
DepuraçãoTempo (↑ = melhor), Qb (↑ = melhor até limite do acesso), Qd (500–800 mL/min), área/tipo do dialisador
Controle de volumeUF alvo = peso pré − peso seco, taxa ≤ 13 mL/kg/h, tempo longo permite taxa/h menor
Eletrólitos/ácido-baseBanho: K 2–3 mEq/L, Ca 2,5–3,0 mEq/L, HCO₃ 32–38 mEq/L, Na ~138 mEq/L
SegurançaAcesso funcionante, anticoagulação adequada, temperatura do banho, monitorização
SinalCausa mais provávelAção imediata
Qb não sobe / alarmes de acessoProblema de posição das agulhas, acesso mal funcionanteChecar posição, revisar acesso
Pressão venosa alta durante HDEstenose venosa, coagulação parcial do circuitoChecar circuito, avaliar imagem do acesso
Hipotensão na sessãoUF rápida, peso seco baixo, medicação, disfunção cardíacaParar UF, Trendelenburg, avaliar causa
CâimbrasUF alta, hipovolemia relativaReduzir UF, salina/glicose hipertônica
Kt/V baixoSessão encurtada, Qb real baixo, acesso com recirculação, amostra erradaVerificar sistematicamente os 8 fatores

Perguntas frequentes

Qual a diferença prática entre HD de alto fluxo e baixo fluxo para o paciente?
O alto fluxo remove melhor moléculas médias (beta-2-microglobulina, PTH, citocinas inflamatórias), o que, ao longo de anos, se associa a menor risco de amiloidose relacionada à diálise e possivelmente menos eventos cardiovasculares. Para prescrição, a diferença prática imediata é que o alto fluxo exige sistema de controle volumétrico preciso na máquina — presente em todas as máquinas modernas. Use alto fluxo como padrão.

Posso diminuir o tempo de sessão se o Kt/V estiver bom?
Com cuidado. O Kt/V mede depuração de ureia — não mede taxa de UF. Um paciente com alto ganho interdialítico que “compensa” com sessão mais longa pode ter um Kt/V adequado com taxa de UF segura. Se você encurtar o tempo, o Kt/V pode cair e a taxa de UF vai subir. Além disso, sessões mais curtas estão associadas a maior instabilidade hemodinâmica, independentemente do Kt/V.

Devo manter o Qb no valor máximo o tempo todo?
Na maioria dos casos, sim. Qb alto maximiza clearance e deve ser mantido se o acesso suporta. A exceção é quando o Qb alto causa pressão venosa muito elevada (risco de acidente de agulha, hemólise por turbulência) ou quando há sintomas de síndrome de roubo arterial — situação que exige avaliação cirúrgica do acesso, não redução crônica de Qb.

Quando prescrever HD sem heparina?
Na vigência de sangramento ativo, pós-operatório recente de alto risco hemorrágico, suspeita de HIT ou hemorragia intracraniana recente. O protocolo usa lavagens com salina a cada 15–30 minutos (mais comum é lavar com 100 ml de SF 0.9% a cada 30 min). A eficiência cai um pouco (coagulação parcial do circuito), e a UFT aumenta, então o benefício precisa superar o custo de depuração reduzida e o paciente precisa tolerar a UF.

O bicarbonato do banho é fixo ou pode ser ajustado individualmente?
Pode e deve ser ajustado. O alvo é bicarbonato pré-HD entre 20 e 22 mEq/L (KDOQI 2015). Se o paciente chega consistentemente com bicarbonato de 17 mEq/L, aumentar o bicarbonato do banho para 38 mEq/L pode resolver. Se chega com 25 mEq/L, reduzir para 32 mEq/L evita alcalose pós-HD.


Referências

  1. KDOQI Clinical Practice Guideline for Hemodialysis Adequacy: 2015 update — Rocco MV et al.; American Journal of Kidney Diseases, 2015. 851 citações. Diretriz principal para adequação e prescrição em HD crônica.
  2. Dialysis initiation, modality choice, access, and prescription: conclusions from a KDIGO Controversies Conference — Chan CT et al.; Kidney International, 2019. 385 citações. Base para filosofia de individualização da prescrição dialítica.
  3. Mass Transport in High-Flux Hemodialysis: Application of Engineering Principles to Clinical Prescription — Mohajerani F, Clark WR, Ronco C, Narsimhan V; Clinical Journal of the American Society of Nephrology (CJASN), 2022. PMID 35277434. Revisão de princípios de difusão, convecção e sieving aplicados à prescrição clínica.
  4. Nomenclature for renal replacement therapy in acute kidney injury: basic principles — Neri M, Villa G, Bellomo R, Ronco C et al.; Critical Care, 2016. PMID 27719682. Consenso de nomenclatura e princípios físicos de terapias extracorpóreas.
  5. Basic physics of hemodiafiltration — Pstras L, Ronco C, Tattersall J; Seminars in Dialysis, 2022. PMID 35869627. Revisão dos fenômenos físicos de difusão e convecção, incluindo efeitos de proteínas e viscosidade plasmática na membrana.
  6. KDOQI Clinical Practice Guideline for Vascular Access: 2019 Update — Lok CE et al.; American Journal of Kidney Diseases, 2020. 2.053 citações. Referência de acesso vascular — aprofundado no artigo 5 desta série.
  7. Hemodialysis Vascular Access: Core Curriculum 2025 — Lok C et al.; American Journal of Kidney Diseases, 2024. 30 citações. Revisão atual de acesso vascular.

Próximo artigo da série → [Kt/V e adequação de HD]

Revise as diretrizes vigentes para atualizações.

⚕️ Este conteúdo é de caráter educativo e não substitui avaliação clínica individualizada. Sempre consulte fontes primárias e diretrizes atualizadas antes de tomar decisões clínicas.