A Retrospective, Real-World Study of IV Iron Use to Treat Iron deficiency Anemia During Acute Infection
Publicado em: maio de 2026
Fonte: Sohail H, Collins JE, Chan K, Alamgir M, Kamran A. Blood. 2025
DOI: 10.1182/blood.2025031965
Resposta direta
Ferro intravenoso (IV) durante infecção aguda é seguro? Pode ser que sim, de acordo com este estudo observacional — e está associado a maior sobrevida, melhor recuperação da hemoglobina e menos transfusões. Isso não muda o paradigma isoladamente, mas, por enquanto, é a evidência de mundo real mais robusta disponível até agora.
O problema clínico que todo plantonista conhece
Você está na enfermaria. Paciente internado por pneumonia, hemoglobina em 8,2 g/dL, diagnóstico de anemia ferropriva registrado no prontuário. Você quer prescrever ferro IV. Aí alguém da equipe fala: “Não dá — o paciente tem infecção ativa. Vai piorar o quadro.”
Essa frase é repetida como dogma em praticamente todos os serviços do Brasil. Mas ela tem evidência sólida por trás? A resposta honesta é: não tem — e nunca teve.
A preocupação é biologicamente plausível: muitos patógenos utilizam ferro para crescimento e virulência. A hepcidina, produzida em resposta ao processo inflamatório, sequestra ferro intracelularmente como mecanismo de defesa do hospedeiro. Isso levou à hipótese de que suplementar ferro durante infecção poderia “alimentar” os patógenos.
O problema é que deficiência de ferro também compromete a resposta imune — reduz a produção e função de neutrófilos, prejudica o burst oxidativo e aumenta susceptibilidade a infecções. Não repor o ferro, portanto, não é uma decisão neutra.
O estudo de Sohail et al., submetido ao Blood, é o maior esforço até hoje para responder essa questão num contexto de mundo real e com múltiplos tipos de infecção.
O estudo em 90 segundos
Design: coorte retrospectiva com pareamento por escore de propensão (1:1)
Banco de dados: TriNetX Research Network — 111 organizações de saúde dos EUA, dados de 2000 a junho de 2025
Critérios de inclusão: adultos (≥ 18 anos) com diagnóstico simultâneo de anemia ferropriva (ADF) por CID-10 (D50.x) e uma das cinco infecções abaixo, com antibiótico prescrito em até 2 dias:
- Bacteremia por MRSA
- Pneumonia
- Infecção do trato urinário (ITU)
- Colite
- Celulite
Total de pacientes: 339.145
Grupos: ferro IV administrado em até 7 dias após o índice diagnóstico vs. sem ferro IV (janela de 1 mês antes a 3 meses após)
Desfecho primário: sobrevivência em 14 e 90 dias (curvas de Kaplan-Meier + log-rank test)
Desfechos secundários: tempo de internação (TDI), dias de antibiótico, dias em ventilação mecânica, dias com transfusão de hemácias, variação da hemoglobina em 60–90 dias
O que o propensity matching score equilibrou
O pareamento por escore de propensão — feito separadamente para cada coorte de infecção — equilibrou:
| Variável | Detalhe |
|---|---|
| Hemoglobina basal | Estratificada em faixas (0–1,99 a ≥16 g/dL) |
| Ferritina | Faixas (<30 a ≥800 ng/mL) |
| VCM | <70, 70–100, ≥100 fL |
| Albumina | <2,5 a ≥3,5 g/dL |
| Comorbidades | DRC, insuficiência cardíaca, DPOC, outras anemias |
| Demograficos | Idade, raça, etnia |
Após o matching, a diferença padronizada (Std. Diff.) ficou < 0,1 em praticamente todas as variáveis — o que é o critério convencional de equilíbrio adequado. As únicas exceções foram pequenos resíduos de hemoglobina nas coortes de ITU e colite.
Resultados principais
Sobrevivência (desfecho primário)
| Infecção | Sobrevivência 14d — IV | Sobrevivência 14d — Controle | Sobrevivência 90d — IV | Sobrevivência 90d — Controle | HR (IC 95%) — 90d |
|---|---|---|---|---|---|
| MRSA bacteremia | 97,6% | 95,0% | 88,6% | 83,8% | 0,67 (0,62–0,73) |
| Pneumonia | 95,7% | 91,5% | 84,7% | 78,1% | 0,66 (0,63–0,69) |
| ITU | 97,6% | 95,7% | 89,1% | 85,6% | 0,73 (0,69–0,78) |
| Colite | 97,6% | 95,5% | 89,7% | 83,8% | 0,60 (0,53–0,68) |
| Celulite | 98,5% | 97,4% | 92,2% | 89,2% | 0,70 (0,63–0,78) |
Todos os valores de p < 0,0001. O benefício é consistente, estatisticamente robusto e, o que chama mais atenção, clinicamente não trivial — principalmente na colite (HR 0,60) e pneumonia (HR 0,66).
Recuperação hematológica (60–90 dias)
| Infecção | Δ Hb — IV (g/dL) | Δ Hb — Controle (g/dL) | p-valor |
|---|---|---|---|
| MRSA bacteremia | +1,32 | +1,00 | < 0,0001 |
| Pneumonia | +1,25 | +0,97 | < 0,0001 |
| ITU | +1,39 | +1,02 | < 0,0001 |
| Colite | +1,45 | +0,74 | < 0,0001 |
| Celulite | +1,41 | +0,92 | < 0,0001 |
Dias de transfusão
Redução significativa em todas as coortes, exceto celulite. Exemplo: na bacteremia por MRSA, 1,6 vs. 1,7 dias com transfusão (p = 0,0002).
Tempo de internação
Discretamente maior no grupo ferro IV em MRSA bacteremia (4,4 vs. 4,1 dias, p = 0,0024) e ITU (4,1 vs. 3,9 dias, p = 0,0007), sem diferença nas demais coortes. Não há sinal de que o ferro IV prolongou a internação de forma clinicamente significativa.
Mecanismo: por que o ferro IV pode não piorar — e até ajudar
A hipótese de que ferro IV “alimenta” o patógeno parte de um modelo simplificado. O que realmente acontece durante uma infecção aguda é mais complexo:
1. A hepcidina já sequestra o ferro livre. Em resposta ao processo inflamatório, a produção de hepcidina aumenta, inibindo a ferroportina e retendo ferro dentro dos macrófagos. O resultado é hipoferremia — que é, em si, um mecanismo de defesa. O ferro IV, nesse contexto, pode repor os estoques depletados sem elevar o ferro não ligado à transferrina (NTBI) de forma sustentada.
2. As formulações modernas geram NTBI transitório. Compostos como ferumoxytol e carboximaltose férrica geram apenas elevações passageiras de NTBI — justamente o que patógenos como S. aureus utilizam com maior afinidade. A janela de vulnerabilidade é real, mas curta.
3. Deficiência de ferro compromete a defesa imune. Neutrófilos de pacientes com ADF têm capacidade fagocítica reduzida e burst oxidativo prejudicado — exatamente as funções críticas para eliminar S. aureus, entre outros. Tratar a deficiência pode restaurar essa função e ser mais benéfico do que o risco de piorar a infecção.
4. Lactoferrina e siderocalina atuam em paralelo. Proteínas secretadas por neutrófilos limitam o ferro extracelular e neutralizam sideróforos bacterianos. O sistema de defesa é redundante — não depende apenas de manter o ferro sistêmico baixo.

Visão crítica da metodologia
Pontos fortes
- Volume: 339.145 pacientes é um banco de dados que gera poder estatístico difícil de contestar. O efeito encontrado é grande o suficiente para emergir mesmo com heterogeneidade de práticas entre 111 hospitais.
- Consistência: o benefício foi replicado em cinco tipos de infecção distintos, com diferentes mecanismos patogênicos, diferentes perfis de morbimortalidade e diferentes populações. Consistência é um dos critérios de Bradford Hill para inferência causal — e aqui ela é impressionante.
- Matching robusto: a escolha de variáveis para o matching é clinicamente inteligente — hemoglobina em faixas, ferritina, albumina, comorbidades como DRC e insuficiência cardíaca. Std. Diff. < 0,1 em quase todas as variáveis após o matching.
- Desfechos múltiplos e clinicamente relevantes: não é só sobrevivência. Incluir transfusão, tempo de internação e recuperação hematológica dá uma visão mais completa do benefício.
Limitações — o que o estudo não conseguiu responder
- Design retrospectivo: causalidade não pode ser estabelecida. Propensity matching equilibra variáveis mensuradas e estruturadas — mas confundidores não capturáveis em prontuário eletrônico estruturado permanecem. Gravidade de doença (scores como SOFA, APACHE), carga microbiana, status funcional e decisão clínica de “quem o médico escolheu tratar com ferro” não estão no modelo.
- Diagnóstico de ADF por CID-10, não por laboratório. Este é o ponto mais delicado do estudo. A ferritina esteve disponível em apenas 31–53% dos registros — ou seja, o diagnóstico de anemia ferropriva é, em muitos casos, do médico assistente, sem confirmação laboratorial. Num contexto de infecção aguda, ferritina é reagente de fase aguda e pode estar falsamente elevada mesmo com depleção de estoques. O estudo assume que o diagnóstico está correto — o que pode não ser verdade em parcela relevante da coorte.
- Ferro IV como variável binária. Qualquer formulação, qualquer dose, qualquer momento dentro da janela de 7 dias = “ferro IV”. Ferumoxytol, carboximaltose férrica, sacarato de ferro, gluconato de sódio férrico — formulações com perfis de segurança diferentes, sendo tratadas como equivalentes. Isso introduz muita heterogeneidade dentro da exposição.
- A separação precoce das curvas de Kaplan-Meier levanta dúvidas. As curvas começam a se separar em menos de 10 dias na maioria das coortes. O efeito hematológico do ferro IV leva semanas para aparecer — o que significa que o benefício precoce de sobrevivência provavelmente não é hematológico. Pode ser um fator confundidor pelo perfil do paciente que recebeu ferro (quem recebeu ferro IV estava em melhor condição clínica, mesmo após o matching), ou pode ser que o ferro IV tenha efeito imunomodulador mais precoce. Não sabemos.
- Hemoglobina em 60–90 dias reflete múltiplos fatores. A recuperação da hemoglobina tardia é influenciada por: resolução da anemia de doença crônica, ferro oral adicional (não capturado para OTCs), melhora nutricional, resolução da inflamação. O estudo não consegue isolar o efeito específico do ferro IV no longo prazo — embora a análise em 14 dias (quando ferro oral ainda não teria impacto relevante) ajude a mitigar esse problema.
- Eventos adversos não estão disponíveis. Hipofosfatemia, reações de hipersensibilidade, febre pós-infusão — nenhum desses desfechos pôde ser avaliado. O estudo é silencioso sobre segurança de curto prazo além da mortalidade.
- Uso de ferro oral não documentado. Suplementos OTC não aparecem em registros estruturados de prontuário. Parte dos pacientes do grupo “sem ferro IV” pode ter recebido ferro oral — o que subestimaria a diferença real entre os grupos.
Por que isso importa para o nefrologista
DRC é a condição em que ferro IV já é padrão de cuidado estabelecido. E olha o dado: em todas as cinco coortes deste estudo, 38–45% dos pacientes tinham DRC. Ou seja, uma parcela enorme da amostra já é o paciente típico de nefrologia.
O cenário mais relevante para nós: bacteremia por MRSA em paciente em diálise com ADF. Esse é exatamente o paciente que mais hesitamos em tratar com ferro IV. Nessa coorte, o HR de 90 dias foi 0,67 — benefício de sobrevivência de ~5 pontos percentuais (88,6% vs. 83,8%). Com 43% da coorte portando DRC, o dado provavelmente reflete, em parte, pacientes em diálise ou com TFGe severamente reduzida.
- O estudo não estratifica por DRC vs. não-DRC, nem por pacientes em diálise — o que seria a análise mais relevante para nefro. Isso é uma lacuna que não pode ser preenchida com os dados disponíveis.
Veredito editorial
Este é um estudo bem executado dentro das limitações estruturais de um banco de dados retrospectivo. O tamanho da amostra, a consistência dos achados entre cinco tipos diferentes de infecção e a robustez do matching fazem dele a evidência mais convincente atual disponível no tema.
Na minha prática, se eu estiver diante de um paciente DRC em HD com deficiência de ferro sistêmica, com quadro infeccioso controlado dentro de 24 a 48 horas do início do antibiótico, a partir de agora ficarei balançado a prescrever a reposição de ferro venoso. É um perfil de paciente bem específico.
Não acredito que o estudo observacional, apesar de robusto, seja convincente para mudar minhas condutas para outros pacientes. O que o estudo mostra é que parece ser seguro tratar ferropenia durante infecção, mas não diz ou sugere que se deve dar ferro para todo paciente infectado. Existem muitas dúvidas ainda no ar para generalizar a prescrição. Qual formulação do ferro? Qual a posologia? E se o paciente tiver infecção não controlada? Para tirar algumas dessas dúvidas, ainda precisamos de ensaios clínicos randomizados (RCTs).
Referência
TriNetX Research Network. Disponível em: https://trinetx.com

Este artigo é de caráter educativo e de análise científica. Não substitui avaliação clínica individualizada. Decisões terapêuticas devem considerar o contexto clínico completo de cada paciente.
⚕️ Este conteúdo é de caráter educativo e não substitui avaliação clínica individualizada. Sempre consulte fontes primárias e diretrizes atualizadas antes de tomar decisões clínicas.